“Todos os assuntos e todas as questões,visando o desenvolvimento deVotuporanga, terão a nossa acolhida,postos os debates num terreno, quedesejamos elevado e acima decompetições pessoais.
“A Vanguarda (N.°1, Ano1, 15/07/1954HOMENAGEM A NELSON CAMARGOUM SÉCULO DE LEGADO NA COMUNICAÇÃO
Neste dia 5 de setembro de 2024, celebramos o centenário de Nelson Camargo, um nome
que resplandece na história de Votuporanga.
Visionário e destemido, não apenas sonhou, mas concretizou suas aspirações ao fundar três pilares da imprensa local: a Rádio Clube AM, Clube 92 FM e o Diário de Votuporanga.
Sua trajetória é um testemunho eloquente de dedicação e resiliência. Nelson Camargo foi um pioneiro em seu tempo, enfrentando adversidades com coragem e determinação. Sua missão transcendeu as barreiras da comunicação, tornando-se um legado de compromisso em servir e doar-se ao próximo.
Hoje, ao lembrarmos de suas conquistas, rendemos tributo a um homem cuja influência perdurará através das gerações, com uma trajetória que não será apenas uma narrativa de
realizações profissionais, mas uma crônica que inspira todos aqueles que buscam fazer a diferença em suas comunidades. Sua memória permanece viva, não apenas nos veículos de
comunicação que fundou, mas também nos corações de todos que tiveram o privilégio de conhecer seu trabalho e sua paixão pela comunicação.
Em sua homenagem por oscasião de sua morte ocorrida em 2007, o colaborador deste Diário, Antoninho Rapassi escreveu uma crônica em homenagem ao jornalista, que foi publicada no jornal O Liberal da cidade de Americana.
C R Ô N I C A – VIDAS E MORTES DE NELSON CAMARGO
Junho, 2007
Por Antoninho Rapassi
O Liberal
Confesso que não entendo de morte e dela tenho medo!
No entanto, enquanto somos vivos a morte não existe, e
quando ela passa a existir, nós deixamos de ser. Ela é a
última coisa que desejo para mim. Mas, quando morre um
amigo fico semanas e meses revivendo os períodos e
momentos, que de qualquer forma eles nos uniram nesta
transitoriedade que é a vida humana.
Desde os anos da trepidante juventude vividos em
Votuporanga, tendo cursado o ginásio “Dr. José Manuel
Lobo” como o “Cruzeiro do Sul” do venerando Cícero
Barbosa Lima Jr, tive notáveis Mestres de Latim como o Dr.
Joaquim Franco Garcia, o Padre Pio e este iluminado
Benedicto Silva, incrível autodidata em idiomas. Deles e
também do professor Egas Moniz ouvi histórias sobre o
culto em que os romanos se dedicavam a decifrar o caráter
inelutável da morte e a atração através do lugar onde os ossos
haveriam de pousar, docemente na eternidade de uma só
noite, enquanto vagarosamente voltavam a ser um pouco de pó.
O óbito não leva em conta a posição social, política e
econômica de suas vítimas. Ela é certa, incerta é a sua hora
que vem seguida com sofrimentos e amarguras.
Estou triste com a perda do velho amigo Nelson Camargo,
figura visionária arrebatada por sonhos utópicos que ele
transformou em realidade, mercê da obstinação que a
cidade acompanhou, testemunhando a sobrevivência do
jornal “A Vanguarda” e, a começar de 1957 da pioneira Rádio
Clube de Votuporanga na frequência AM, que foi
seguramente a maior ampliação dos horizontes da cidade
balzaquiana.
Estes dois instrumentos de comunicação, com duplos gumes
afiados sempre foram usados com justeza e bom senso.
Grande Nelson Camargo! Ágil e independente,
democrata e culto, ele foi um cidadão a contabilizar grande
saldo de realizações positivas em benefício das cogitações
culturais da invicta urbe que despontava nos confins do
Oeste paulista. Dá pra esquecer as memoráveis produções
artísticas no auditório do “Edifício Budin” da Rua
Amazonas, no qual a Rádio Clube de Votuporanga
sustentava a exemplo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro?
As vesperais apresentações de numerosas duplas caipiras,
nas febris competições musicais de auditório, sacudiam o
sedentarismo dos sábados mornos com o lufa-lufa que
beneficiava o comércio varejista ao som do tropel dos
cascos de fogosos cavalos. Era uma festa de arromba! No
dia seguinte, a começar da hora do almoço toda o município se
concentrava na emissora que era comandada através do divertido
Jaime Cunha, criador de apelidos aos que se dispunham a
ser calouros, como aquele “A Bonequinha Loira” dado para
a Claudinice Soares Publio que virou a melhor cantora de
Votuporanga.
Votuporanga teve em Nelson Camargo seu maior
comunicador e empreendedor de entretenimentos naqueles
felizes tempos que antecederam à famigerada fase do
domínio tirânico da televisão. Lembro-me de quando
estourou à notícia de que Nelson Camargo estava a bordo
do avião da VASP que caiu ao mar, logo depois de a decolagem
do Aeroporto “Santos Dumont”. Era um dia qualquer de
1959, e bem me lembro que ele foi um dos poucos que
sobreviveram ao desastre aéreo. Nosso intrépido
conterrâneo foi de imediato resgatado no mar, voltou
molhado ao saguão do mesmo aeroporto e com um braço
quebrado de forma rápida embarcou em novo voo para São
Paulo, para cumprir comprometimentos agendados. Nelson
Camargo acabara de nascer outra vez. Mas, a sua primeira
morte se deu quando da brutalidade da perda de sua filha
única, Cláudia Camargo.
Quantas vezes, ao voltar para Votuporanga e repetir a visita
reconfortante ao túmulo dos meus pais, encontrava-me
com Nelson Camargo nunca refeito do duro golpe,
devastado mesmo, pois a denúncia estava ali estampada em
seus olhos cansados de meditar e chorar.
E ele atormentado, solitário e alquebrado vivia o Purgatório
de Dante, sem saber que este florentino, efígie da raça
italiana, sete séculos antes parece ter escrito em particular
para Nelson Camargo:
“Não existe… maior dor que recordar, na amargura, a hora
feliz.”
Transcrito de uma publicação do jornal “O Liberal” de
Americana, edição de 10. 6. 2007.
Com informações da Diario de Votuporanga


